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Just Mom

Uma autêntica salada russa (eu sei!), mas espero que se divirtam a ler.

Just Mom

Uma autêntica salada russa (eu sei!), mas espero que se divirtam a ler.

14
Nov16

Uma aldeia na vanguarda da civilização

Mom Sandra

("É a tua aldeia, Mom?")

 

Hummm... No que a avanços da civilização diz respeito, posso dizer-vos que não está na vanguarda... Mas aposto que ganha um prémio de classificação, num qualquer concurso de bizarria.

 

A minha aldeia é muito pequena.

Devemos ser, para aí, uns 1000 habitantes... ("Só?") Pronto, está bem, talvez nem sejamos tantos. Numa tentativa de ser um pouco mais realista, talvez cheguemos aos 500 habitantes... ("A sério, Mom?!") Mesmo a sério, não sei! Segundo os meus cálculos, devemos andar entre os 300 e os 500 habitantes, mas, devido à ausência de dados (e eu procurei-os), não sei dizer exactamente quantos somos.

 

Por sermos uma catrefada de gente a viver aqui, temos direito a um café, uma paragem da carreira (nome pomposo dado pelas gentes da terra - porque é o que está escrito na bandeirola das paragens - aos autocarros, ou cami(o)netas), uma cabine telefónica e para aí uns 7 conjuntos de eco-pontos + 2 contentores grandes do lixo, espelhados pelas zonas onde existem agrupamentos de vivendas,

 

Esta pequena aldeia é atravessada por uma EN, que a divide entre a parte norte e a parte sul... E aqui é que a porca morde torce o rabo*!

 

Just Mom by Mom Sandra

 

 

 

 

E que bem se vive no campo!

 

 

*Primeiro achei que era morde, embora não estivesse convicta disso porque não fazia sentido. Quase no fim do post acendeu-se uma luz no meu cérebro que iluminou a palavra torce... Com a idade, o Alzheimer acentuou-se.



12
Nov16

Desapareceu sem anúncio

Mom Sandra

Num qualquer dia de Inverno que estivéssemos juntos, a cabine era sempre o nosso refugio. Fugíamos da chuva, do frio e dos pais, sempre que aprontávamos mais uma.

 

Naquele tempo, a cabine era daquelas todas fechadas, cuja porta abria em acordeão, para dentro, e não devia ter mais de um metro por um metro, no entanto e sem grande esforço, cabíamos lá os quatro (depois da técnica aprendida).

Eu e a sis sempre fomos magrinhas, as duas juntas não ocupávamos um espaço.

O louro também era um trinca-espinhas, mas era acima de tudo moldável. O rapaz parecia ser feito de borracha.

E depois havia o génio. O génio era baixo, gordo, coxo e usava óculos. Era, acima de tudo, um bom amigo, mas era hirto, ocupava o espaço dele sem que conseguíssemos demovê-lo.

 

A primeira vez que nos lembramos de ir para a cabine foi um fartote de rir. Não conseguimos caber os quatro, e as várias tentativas frustradas de o conseguirmos, acabavam sempre connosco agarrados à barriga a rir. Lembrámo-nos de ir para a cabine quando começou a chover, mas quando conseguimos, finalmente, entrar os quatro, percebemos que o objectivo tinha sido falhado. Nós estávamos completamente encharcados... Mas estávamos felizes. Enquanto esperávamos pelo fim da chuva, conversávamos animadamente, até que um de nós tem uma ideia luminosa* - ligar para os números que sabíamos de cor e brincar com quem atendesse.

 

A cabine foi a nossa casa na árvore durante muitos Invernos. 

Foi a cabine que nos apresentou à nossa judiaria preferida. No início éramos uns totós, as chamadas que fazíamos eram básicas, do tipo "está na linha?" / "sim" / "então saia que o comboio vai passar". Os números eram os que sabíamos ou que marcávamos aleatoriamente,

Com o passar das semanas tornámo-nos mais ariscos e desafiadores. Descobrimos as listas telefónicas e passámos a ligar para números escolhidos de acordo com os nomes mais estranhos. As chamadas passaram a ser mais longas. Procurávamos que a pessoa ficasse interessada no que dizíamos e só depois é que saía a patetice. O final era sempre o mesmo: desligar muito abruptamente e rir desmesuradamente.

 

Embora só fizéssemos esta judiaria no Inverno, os momentos de alegria que nos proporcionou levou-nos a criar uma ligação especial com a cabine. Naquele tempo, nós sabíamos que no Verão íamos para a praia e no Inverno para a cabine.

Até que chegou um dia, era Verão, em que apareceu um camião enorme, de caixa aberta, que parou à beira da estrada. Lá de dentro saíram alguns cinco homens, todos vestidos de igual. Nas traseiras do camião, dentro da caixa aberta, conseguíamos ver um ferro gigantesco e o que parecia ser um ovo. Assim que vi percebi o que era, já conhecia da cidade. Lá já havia há uns anos e por isso a nossa era ainda mais especial... Já não existia mais nenhuma igual a ela. Ainda de olhos postos no que estava a acontecer do outro lado da estrada avisei os outros de que iam mudar a cabine. Íamos "ter daquelas todas abertas, em que as pessoas apanham chuva se precisarem de telefonar."

 

Fomos embora e só voltámos no dia seguinte, para conhecermos a nova cabine. 

 

 

*em nossa defesa, alego que a culpa é do Bart Simpson, que na altura ligava para o bar do Moe a fazer o mesmo.